João Roque. Leitura guiada 01
Leitura guiada nº 01 · IA aplicada · 8 min

O que o Itaú já aprendeu com IA, e o que dá para aproveitar no seu trabalho.

O diretor de tecnologia do Itaú e um sócio sênior da McKinsey passaram 52 minutos falando do efeito da IA no sistema financeiro. Assisti com calma e organizei aqui o que serve para qualquer equipe, dentro ou fora de um banco: o mapa das três ondas de adoção, os números que eles já medem e a parte que quase ninguém comenta em público, que é o efeito disso na rotina de quem trabalha.

Em 60 segundos

Se você só tiver um minuto, leve estes cinco pontos.

  1. 01

    A digitalização dos bancos levou de sete a dez anos. A estimativa deles para a IA é de três a cinco, e quem sai na frente abre uma distância que fica difícil de recuperar.

  2. 02

    A adoção acontece em três ondas. Quase todo mundo parou na primeira, que é justamente a que escala sozinha e a que ninguém consegue provar.

  3. 03

    Em engenharia de software o ganho já virou rotina lá dentro: 70% das correções de vulnerabilidade saem com apoio de IA e a produtividade subiu de 20% a 35%.

  4. 04

    O preço de errar despencou. Experimentar ficou tão barato que passar meses planejando antes virou desperdício.

  5. 05

    A parte difícil está na rotina das pessoas, e ela não cabe mais em um treinamento único. O que você aprende hoje muda na semana seguinte.

As três ondas de adoção

É o mapa mais útil do episódio. Serve para qualquer empresa descobrir em que ponto ela está de verdade.

Onde está quase todo mundo Onda 01

Produtividade individual

Copilotos, resumos, rascunhos, protótipos, apoio à documentação. Escalou rápido porque cada pessoa adota sozinha, sem depender de projeto.

O problema: o ganho é individual e difuso. Dá para sentir, é muito difícil medir. E, como eles mesmos dizem, o que não se mede também não se captura.

Onda 02

Agentes dentro do processo que já existe

Milhares de agentes cuidando de etapas de processos que já rodam. É onde a conta começa a fechar, porque o processo já tem indicador.

Como se mede: tempo do início ao fim, custo de servir, tempo de resposta ao cliente, retrabalho.

Onda 03

O processo inteiro repensado

Vários processos redesenhados juntos, com um novo desenho de quem faz o quê entre pessoas e agentes. É onde está o salto de valor.

O estado da arte: quase ninguém chegou. No episódio, foi descrita como a onda com mais valor e menos escala hoje.

Pesquisa da McKinsey citada no episódio: menos de 10% das empresas que adotaram IA conseguiram valor real. A distância entre parar na onda 1 e chegar na onda 3 explica boa parte desse número. Distribuir ferramenta para todo mundo não muda processo nenhum sozinha.

Os números que ele colocou na mesa

Todos citados por Carlos Mazzei durante o episódio. Reproduzo como foram ditos, sem arredondar para cima.

70% das vulnerabilidades de código corrigidas com apoio de IA Antes, a correção era 100% humana.
20 a 35% de ganho de produtividade em engenharia Varia conforme o contexto do time.
15 a 20% de redução no tempo de entrega Lead time e cycle time das entregas.
80%+ de recorrência no Pix pelo WhatsApp Quem usa uma vez volta a usar.
v25 é a versão atual desse mesmo produto Sinal de quanto se refaz pelo caminho.
~2 meses da pesquisa ao produto no ar Ciclo que antes levava de meses a anos.

O número que não estava no slide: segundo ele, o ganho de qualidade foi tão relevante quanto o de velocidade, e é a parte que quase nunca se conta. Vale guardar também o efeito de fora para dentro que ele levantou: quando todo mundo fica mais produtivo ao mesmo tempo, a vantagem raramente vira corte de custo. Vira velocidade obrigatória.

A parte das pessoas, que é a mais difícil

Foi o trecho mais honesto da conversa, e o que menos aparece em apresentação de tecnologia.

  1. 01

    Acabou a sala de aula única. Como a ferramenta muda toda semana, não dá mais para fazer a grande onda de treinamento e considerar o assunto resolvido. O caminho que eles descrevem é outro: fomentar curiosidade e dar autonomia a quem está na ponta.

  2. 02

    A própria IA ensina a usar IA. Apontada no episódio como vantagem inédita desta tecnologia: ela derruba a barreira de entrada dela mesma, coisa que planilha, banco de dados e nuvem nunca fizeram.

  3. 03

    Mudou o que se avalia numa pessoa. Em engenharia, o critério deixou de ser provar domínio de algoritmo e passou a ser aprender rápido e produzir resultado em terreno instável.

  4. 04

    Quando o processo é repensado, o trabalho muda de natureza. A pessoa passa a orquestrar e decidir mais, e a executar manualmente menos. Isso é gestão de mudança, e não se resolve com um treinamento de ferramenta.

  5. 05

    Sem narrativa clara, a adoção trava. Se o colaborador não entende o que a IA significa para ele, o medo de substituição responde a pergunta no lugar da empresa.

  6. 06

    A melhor IA é a que não aparece. Sucesso, para eles, é o cliente sentir que ficou mais simples sem precisar saber que tem IA ali dentro.

Três frases para levar

Ditas no episódio, reproduzidas na íntegra.

“a inteligência virou líquida”
Carlos Mazzei · sobre comprar capacidade cognitiva de forma elástica
“Se todo mundo é mais produtivo, a regra do jogo passa a ser velocidade”
Carlos Mazzei · sobre o efeito de mercado, não o efeito interno
“como é que eu faço pra IA? Eu falo, pergunta pra IA”
Carlos Mazzei · sobre letramento que se resolve sozinho, em parte

Comentário de João Roque, não está no vídeo

A minha leitura

O Itaú tem instituto de pesquisa, artigo na Nature e um time de tecnologia do tamanho de uma empresa média inteira. Quase ninguém tem. Mesmo assim, quase tudo que eles contam aqui cabe numa equipe de dez pessoas, com outro orçamento.

Assinatura para todo mundo ainda não é estratégia.

Liberar a ferramenta para a empresa inteira é onda 1, e onda 1 quase não aparece no resultado. Se ninguém consegue dizer qual processo melhorou e em quanto, o que existe ali é despesa, não estratégia. Escolher um processo custa mais coragem do que dinheiro.

Ficou barato errar.

Isso vira do avesso a ordem de trabalho que a maioria de nós aprendeu. Em vez de estudar seis meses para escolher bem, faça pequeno e descubra em duas semanas. Só que alguém precisa olhar o resultado com critério e dizer se presta. Rapidez sem julgamento é só produzir lixo mais rápido.

Letramento é rotina.

Uma equipe que sai de um treinamento e passa quinze dias sem usar IA volta ao ponto de partida. O que sustenta é frequência, exemplo tirado do trabalho real daquela equipe e alguém por perto para destravar quando a resposta vier errada. O treinamento abre a porta; quem muda o número é o hábito depois dele.

Meça antes de mexer.

Boa parte das empresas não consegue provar valor por um motivo bem prosaico: ninguém anotou como era antes. Um número medido antes vale mais do que dez percepções depois, e ele precisa ser do processo, não da ferramenta.

O sinal de que deu certo é a conversa parar de ser sobre IA.

Se a discussão interna virou qual modelo é melhor, alguma coisa se perdeu no caminho. A pergunta que continua valendo é bem mais chata: que parte do trabalho hoje é lenta, cara ou irritante o bastante para valer o esforço?

Por onde começar agora

Não precisa esperar a segunda-feira, nem o comitê, nem o orçamento do ano que vem.

  1. Comece por um processo, não por uma ferramenta.

    Um que doa, que aconteça muitas vezes por semana e que alguém consiga descrever do início ao fim numa folha.

  2. Anote como ele está hoje.

    Quanto tempo leva, quantas pessoas encostam nele, quanto retrabalho gera. Três números bastam, e eles precisam existir antes de qualquer mudança.

  3. Rode quatro semanas com quem faz o trabalho.

    De preferência não com o entusiasta de tecnologia do time. Quem executa é quem enxerga onde a IA ajuda e onde ela atrapalha com jeito de ajuda.

  4. No fim, redesenhe.

    Se o processo continuou igual, só que com um assistente no meio, você ficou na onda 1. O ganho grande aparece quando as etapas mudam de lugar, mudam de dono ou deixam de existir.

É esse o trabalho que eu faço com equipes.

Ensino times e lideranças a usar IA no trabalho que já existe, com os processos da própria casa e sem tecniquês, para que a equipe não dependa de mim depois. Se a leitura te deu vontade de sair da onda 1, me chama.

Fonte e método

Esta página é um resumo editorial de um conteúdo público de terceiros. O crédito do conteúdo original é de quem o produziu.

  • Vídeo: McKinsey Talks: Como a AI está redesenhando os bancos, com o diretor de tecnologia do Itaú, canal McKinsey & Company Brasil, publicado em agosto de 2026, 52 minutos.
  • Produção: parceria do Brazil Journal com a McKinsey. Participantes: Carlos Mazzei, diretor de tecnologia do Itaú, e Yran Dias, sócio sênior da McKinsey.
  • Como fiz: transcrevi o áudio, organizei os temas com apoio de IA e revisei tudo à mão. As três citações estão na íntegra, como foram ditas. O resto é síntese minha do que foi dito.
  • Limite: os números são declarações dos participantes, sem verificação independente. A transcrição automática trocou alguns nomes, e conferi a grafia correta na descrição oficial do vídeo.

Leitura publicada em 8 de setembro de 2026.